O parto de a “Noite”, poema de Vasco de Lima Couto.

Centenas de fadistas, induzidos pelo sucesso deste tema, cantam os magníficos versos do erudito Vasquinho sem de todo saberem, em grande maioria, o que estão a cantar. Bastaria perguntar-lhes como interpretar em realidade corrente, por exemplo: «Oh… minha mãe de arvoredo que penteias a saudade». E, claro, bolas, o é-é-é vai no Batalha. Com esta descrição, pelo menos e doravante, ficar-se-à a saber à tona do tempo o que deveras significam as palavras do insubstituível Poeta do Porto.

Como os amigos também se zangam, queiram ou não, há mais ou menos cinquenta anos, na Taverna de São Jorge, o Jorge Barradas zangou-se com o Vasco de Lima Couto e impôs-lhe o convite imediato de sair para o Passeio das Virtudes.

O Vasco, a cambalear de Logan’s, caminhou em direcção à Cordoaria, subiu a pequena rampa à direita, entrou no jardim, e sentou-se num dos bancos a fruir a delícia plena da madrugada.

Olhou o céu com o arvoredo a fazer contínuos e flutuantes acenos, como se fossem mãos a afagar o rosto da transparência da noite, onde quiçá tenha imaginado o rosto de sua saudosa mãe.

Ali e então, surgiram-lhe aflitivamente as dores do parto poético, e o filhote, entre silenciosos gritos, todo-todo nuzinho, começou a surgir à luz da vida dos eternos fados.

NOITE

Sou da noite um filho noite,
Trago rugas nos meus dedos
De contarem os segredos
Às altas fontes do amor…

E canto porque é preciso
Raiar a dor que me impele
E gravar na minha pele
As fontes da minha dor…

Noite. companheira dos meus gritos,
Rio de sonhos aflitos
Das aves que abandonei…
Noite, céu dos meus casos perdidos…
Vêm de longe os sentidos
Nas canções que eu entreguei.

Oh… minha mãe de arvoredo
Que penteias a saudade
Com que vi a humanidade
Na minha voz soluçar…

Dei-te um corpo de segredos
Onde arrisquei minha mágoa
E onde bebi essa água
Que se prendia no ar…

Entretanto, dias avante, com o Vasco e o Jorge já reconciliados, o Max veio ao Sá da Bandeira e, terminado o espectáculo, foi cear e passar bem a noite à Taverna de São Jorge.

Terminado o serão às quatro-da-madrugada e já com a porta encerrada, o Vasco, o Jorge e o Max, continuaram a conviver e a beber. O Vasco, oportuno no efeito, sacou do bolso o poético bebé, mostrou-o aos seus amigos, e estes acharam o menino tão lindo-lindo que começaram de imediato a vesti-lo de azul-e-branco.

Com o exímio Jorge Barradas à guitarra clássica, a prender as tentativas musicais do Max à procura da melodia ideal, o bebezinho iniciou a marcha de crescimento até ao menino superlativamente encantador, hoje um já bem cotado cidadão na ribalta do Fado.

E foi assim que eu aprendi a ser persistente amante da noite porque tive o privilégio e a sorte de ter estado por perto e começar a conhecer em pormenor a cabeça, o tronco e os membros do Fado na minha querida Cidade.

Porto, 11h29 – 28 de Julho de 2017
António Torre da Guia