Qual será a Voz Fadista que bem domine estes versos e rebente com tudo – no bom sentido, claro – na música do Fado da Freira. Confessem-se ou não, em todos quantos os 40 já foram, as duas imagens que refiro pairam e flutuam no cérebro de cada um frequentemente.

Vivo a doer dia a dia
entre o pêndulo das horas
e o gemer da solidão,
agarrado à fantasia
que me diz que tu demoras
mas não espero em vão.

Conforta-me a oração
do fado que me enamora
e canta dentro do peito,
o amor da perdição
que um dia se foi embora
e deixou tudo desfeito.

À sombra do imperfeito
outra sombra à deriva
vagueia dentro de mim,
e às vezes até suspeito
que estou em carne viva
a sofrer meu próprio fim.

Adormeço e enfim
mergulhado na quimera
meu corpo em sonho atravessa
o luminoso jardim
onde me dizes: – Espera,
meu amor, não tenhas pressa !..

Porto, 00h00 – Porto, 26 de Julho de 2017
António Torre da Guia.