A Bea- Beatriz da Conceição.

E não foi por isto que deixamos de ser Amigo e Amiga pelo tempo fora…

A Bea era uma muito rara pérola a falar e a desenvolver calão, e do mais pífio dos pífios era capaz de fazer uma obra de arte. A Bea, vítima do corriqueiro dito de ser uma malcriada, era sim uma exímia criatura da grande batalha da vida contra os estuporados que fazem da existência um sucessivo inferno até à náusea.

Um dado dia, estava o êxito do «Meu Corpo», do Ary e do Tordo, a caminho seguro das estrelas, e encontro-me com o Alfredo Guedes no Tropical. No decurso da conversa, o Guedes diz-me:

AG – Torre, gosto imenso da música do «Meu Corpo» da Bea. Conheces?
TG – Conheço e entra de imediato no ouvido.
AG – És capaz de fazer uns versos sobre outra coisa qualquer para essa música?
TG – Espera aí… Ora, em lugar de «Meu Corpo» cantarola «Criança».
AG – Cri…an..ça… Ena, pá!. Está certinho…
TG – Tá?… Então canta:
Criança
verbo para começar
a ouvir e a falar
o vento…
Criança
asa nova da partida
para a viagem da vida
no tempo.

Três dias depois o Alfredo começou a espalhar pelo rodopio fadista que frequentava a «Criança de Todos Nós».

Meses adiante a Bea veio ao Porto e foi dar uma semana ao FADO, ainda do Albano.

Na primeira noitada, após já ter tido duas actuações, a Bea foi encerrar o serão às quatro da manhã. Estava eu num canto de mesa acompanhado pelo meu querido amigo e saudoso António Reis,. Falávamos muito baixinho:

AR – Torre, esta gaja canta pra caraças. Arrasa tudo…
TG – É de mais. Esta é das tais em que a invenção se inventa a si mesma.

Encerrada a cantoria, as luzes acenderam-se. Tinha à minha frente uma garrafa de maduro-tinto Dão que ia apenas no segundo copo. A Bea abeirou-se de nós com cada uma das mãos em cada ombro dos dois.

BC – Então meninos… pareceis dois melrinhos muito encolhidos…

De imediato pegou na garrafa e começou a despejar o vinho pela minha cabeça abaixo. Levantei-me, pois, a sacudir-me de espanto, todo vermelho como um perú que não quer morrer.

BC – Estás a ver, estás a ver ó poeta salteador? Estás a ver do meu corpo o sanguezinho todo depois de parir a criança?!…

Não sei como, ocorreu-me levar a cena para grande plano.

TG – Albano, ó Albano, traz depressa um penso higiénico para esta grandessíssima vaca marciana…

Nessa bela madrugada, acabamos todos de gatinhas às duas da tarde. Três diligentes convivas foram a casa buscar camisas brancas. Vesti uma e as outras duas alguém se encarregou de cuidar delas.